Há cinquenta anos o agrônomo Fumio Honda criou o primeiro núcleo organizado de produtores de bambu em SC, na colônia japonesa de Frei Rogério, no centro do Estado. Lá foi plantada uma área de aprox. quarenta hectares, com espécies de bambu adequadas ao clima frio da serra. Os agricultores produzem alho e usam o bambu como suporte na secagem do produto. O bambu também fornece um dos alimentos mais apreciados da culinária japonesa, que são os brotos, cujo valor nutritivo é semelhante ao do palmito.
Um outro pioneiro é o engenheiro civil Marcos Marques, que há duas décadas trocou a cidade de São Paulo por Florianópolis e que começou a plantar diversas espécies de bambu no município de Rancho Queimado, visando desenvolver técnicas de permacultura e de bioconstrução. Em 2004 ele organizou um memorável curso de introdução ao bambu em Florianópolis, ministrado pelo professor Marco Pereira, da Unesp de Bauru/SP, que resultou na criação de um grupo de estudos do bambu, hoje conhecido como BambuSC (Associação Catarinense do Bambu).
Na mesma época surgiu uma nova área de cultivo na Região Norte, em torno das fábricas de móveis de São Bento do Sul. Algumas delas já produziam chapas de bambu laminado, a partir de matéria-prima importada de outros estados, e passaram a estimular o plantio local, oferecendo garantia de absorver a produção futura. Já foram plantados em torno de 150 hectares, sendo 80% no alto da serra, com espécies de clima frio, e o restante na região baixa, com espécies tropicais.
Em 2015 tivemos a entrada de diversos novos projetos, que visavam ampliar e diversificar ainda mais a oferta de bambu em SC. Uma fábrica de palitos, situada no centro do Estado, plantou 40 hectares de bambu em São Cristóvão do Sul, para substituir ou complementar a madeira de pinus usada até então e depois plantou outros 40 hectares. Na Região Sul, em Santa Rosa de Lima, a cooperativa Agreco ofereceu cursos de cultivo de bambu aos seus associados, com o objetivo de formalizar um núcleo de produtores de conservas de brotos de bambu em suas fábricas de produtos orgânicos. Outra iniciativa está sendo planejada pela AMUREL (Associação dos Municípios da Região de Laguna), que pretende estimular o cultivo do bambu como nova opção de trabalho e renda, tanto para atividades rurais, quanto industriais de diversos municípios da região.
A BambuSC conseguiu estender a sua atuação à Região Oeste, incorporando um grupo de bambuzeiros dos municípios de Seara e Chapecó, formando a primeira Unidade Regional, em 2019.
No mesmo ano a BambuSC também firmou um Acordo de Cooperação Técnica com a Epagri, que tem sido renovado a cada ano. Isso permitiu o treinamento de técnicos e o plantio de mudas de bambu de diversas espécies em oito estações experimentais da Epagri. Todos os anos o acordo vem oferecendo de 10 a 20 cursos gratuitos, nos mais diversos municípios do Estado, que ensinam os interessados a produzir móveis e artesanato de bambu, além de conhecimentos básicos sobre o cultivo da planta, suas características e oportunidades de geração de trabalho e renda.
Existe também o interesse de algumas empresas de grande porte no uso da biomassa de bambu para a geração de energia, o que envolve plantios em larga escala. Santa Catarina já dispõe da tecnologia de produção de mudas de bambu por micropropagação, que foi desenvolvida no Laboratório de Genética Vegetal da UFSC, cuja equipe de pesquisa acumula 25 anos de experiência em técnicas de micropropagação. O objetivo é popularizar o bambu, a exemplo do pinus e do eucalipto, e gerar muitos empregos no campo e também nas cidades.
Todas essas iniciativas e conquistas se devem a atuação da BambuSC, uma organização não governamental, cujo objetivo é o desenvolvimento sustentável da cadeia produtiva do bambu em SC e no Brasil. Desde o início ela persegue algumas metas de longo prazo, como tornar SC autossuficiente na produção de matéria-prima, proporcionar treinamentos e realizar projetos-piloto de uso do bambu na recuperação de áreas degradadas, na produção de carvão de bambu e na produção de brotos comestíveis, entre outros.
As atividades da BambuSC se concentram na aquisição e divulgação de tecnologias específicas, nos três segmentos que compõem a cadeia produtiva: produção rural, produção industrial e prestação de serviços. Seus membros promovem cursos, reuniões periódicas e mantêm diversos canais de contato entre si e com o público em geral, como um site próprio e diversos grupos nas redes sociais.
Desde 2008 a BambuSC tem cooperado com a UFSC, no desenvolvimento de pesquisas de bambu nas áreas de engenharia civil, arquitetura, engenharia de materiais, química, agronomia, tecnologia de alimentos e botânica.
Em 2019 foram iniciados dois novos pojetos, o “Bambu na Escola” e o “Bambu no Jardim Botânico de Florianópolis” e em 2022 a Assembleia Legislativa aprovou a Lei Estadual No. 18.341, que instituiu a Política Estadual de Incentivo ao Desenvolvimento da Cadeia Produtiva do Bambu.
A BambuSC tem sido pioneira no ensino de técnicas de cultivo e manejo de bambu, inclusive para povos indígenas e órgãos de governo, bem como na produção de material didático, tendo já lançado dois livros e duas cartilhas.
Em maio de 2026 ela completou 21 anos de fundação e pode contabilizar diversos avanços no período: a formação de mais de 2 mil bambuzeiros em seus cursos, busca de novas tecnologias em outras regiões do país e do exterior, participação em projetos de pesquisa via editais e divulgação de conhecimentos através de consultorias, palestras, artigos técnicos, entrevistas, vídeos e outros meios. Vale destacar também, que a BambuSC serviu de exemplo para a formação de grupos de bambuzeiros nos dois estados vizinhos e o seu estatuto serviu de modelo também para a Associação Brasileira do Bambu.